domingo, 30 de março de 2008

ao farol

"Dirigidos por alguma luz desgarrada, tombada de uma estrela sem véu, de um navio errante, ou do próprio Farol, com sua pálida pegada sobre degraus e tapetes, os pequenos ares subiram a escada e farejaram pelas portas dos quartos. Mas aqui, decerto, tinham que parar. Quaisquer que fossem as coisas que pudessem aparecer e desaparecer, o que aqui se encontra é bem sólido. Aqui, podia-se dizer àquelas luzes deslizantes, àqueles ares tateantes que respiram e se curvam sobre o próprio leito, aqui nada podem tocar e nada podem destruir."


Virginia Woolf, Viagem ao farol

sábado, 29 de março de 2008

obrigada por se lembrar de mim...

segunda-feira, 17 de março de 2008

Diuturnidade

Com o que sonham os Sonhos realmente?

1- Nem tudo estará dito depois de todas as palavras.
2- Nunca adormece uma memória atulhada de presenças.
3- Não abandona-se para sempre o vigoroso desequilíbrio das horas primitivas.
4- O tempo trabalha no ritmo da profundeza, e desdobra grosseiramente o que vamos encontrar por ser avesso a explicações.
5- O relógio soa no masculino e no feminino porque são necessários dois substantivos para germinar a máquina.
6- A libertação só é realmente profunda na profundidade indeterminada da solidão.
7- No abismo das sombras se rompe um albergue de fantasmas.
8- O monstro mais temido se tinge de melancolia.
.
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(Quando o sonho é realmente profundo, o ente que vem sonhar em nós é o próprio Sonho.)

domingo, 16 de março de 2008

então...











sábado, 15 de março de 2008

Zona autônoma

Tenho uma razão razoável para racionalmente tentar racionar o tempo reservado ao sonho. O sonho às vezes recebe uma certa espessura de significação que precipita o seu significado em relação ao significante sonhado.
O sonho sonha.



(- Eu, sonhando acordada já é uma merda, imagina no meio do quinto sono onde não tenho controle algum sobre o Seo Sonho!)
Tenho fugido da minha companhia.
Ando me querendo longe de mim.

quarta-feira, 12 de março de 2008

De súbito, o teu rosto.
Congelo.

terça-feira, 11 de março de 2008

Fantasia

Uma pitada de impalpável com duas colheres de improvável aquecidas no fogo da imaginação.
Desejo.

domingo, 9 de março de 2008

A palavra não é uma etiqueta vazia que dá nome às coisas, mas um sopro da presença dessas coisas que nomeia. . .

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Sei lá... hoje estou tããão felizzzzzz.
Quero mandar um beijo pro meu pai, pra minha mãe, pra minha irmã, pro meu irmão, para as minhas duas estrelinhas, para o zangão aqui de casa, pra Mô, pro vizinho da esquerda, pro da direita, para o dos fundos (que eu nem conheço), pra galera que joga futebol na praça até de madrugada e fala um monte de palavrão... e pro Ita e pro Maurício que de alguma maneira sempre me fazem rir.

^^

manámaná... tchutchu... tchuu-ru.
.
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ziligue-dum... balaco-baco... teleco-teco...
ziliguedumbalacobacotelecoteco...

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

estou em metades.
metade pedra
metade pássaro
metade verme.
e metade de mim se esconde
debaixo da metade de mim.
metade de mim vai embora.
a outra metade brota da metade que fica.


(por onde andará a metade partida?)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

e desenho tua face no silêncio...
um traço me escapa.
A construção do imaginário é a 'coisa' X que leva a Y, mas que não deixa de ser X.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

As palavras sairam de veraneio.
Tenho deixado as portas abertas, mas é a janela que me tem.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

ene-a-o-til

Toda existência envolve a idéia do NÃO.
Ser este é não ser aquele. Ser eu é não ser o outro.


(aula de Semiótica)

domingo, 17 de fevereiro de 2008

"Mas o que é uma lembrança da qual a gente não se recorda?"
(Proust)

sábado, 16 de fevereiro de 2008

corpo, espaço e tempo
palavra, linguagem e pensamento
memória e esquecimento

Fronteira.

Eis-me no centro da tese que quero defender.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

A minha linguagem sem censura que só o solitário devaneio conhece, carrega as palavras repousadas que dizem tudo de mim. A minha linguagem sem censura que só o solitário devaneio conhece, carrega as palavras marteladas que dizem metade de você.

(a outra metade morreu de morte matada.)
olha só se não vale a pena ter nos favoritos.

http://www.musicovery.com/

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Uma lembrança circula nas sombras. E eu digo chega!
Então chega, basta, fim! (estou tentando me ordenar isso)
São dias de cama. Ando precisando de uma atitude Pagu ou Leila Diniz nessa vida.
Olho de lado e o artesão do sono me faz um sinal.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

MON COEUR MIS A NU

A cada instante aparecem em nossas vidas convites e somos surdos. Temos medo.
Queremos o chão seguro, a prateleira arrumada, a mesa posta. Nos negamos a ser os autores de nossas próprias vidas, por medo.
A cada instante nascem oportunidades natimortas.




(em resumo, MEU CORAÇÃO DESNUNDADO - BAUDELAIRE)
aula de Semiótica

domingo, 10 de fevereiro de 2008

JUSTIFICAÇÃO


Foto: Alain Marty


Foto: Fernando Siqueira (fragmento)


Foto: A. Brito (fragmento)


Foto: Gabriele Rigon


Foto: Frank Boots


OK!
SE ASSIM É... SEJA!!


Foto: Kazuo Okubo (fragmento)

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Fronteiras da memória e do esquecimento

A memória é uma utopia, ficção que se confronta com a complexidade e a irredutível multiplicidade do real. O esquecimento é um mundo anacrônico, cheio de retardos e perdas, é um monstro apressado, absorvente, tecido por mil memórias. São necessárias memórias para serem esquecidas, depois é necessário esquecê-las.
Entre memória e esquecimento reina a profusão de Babel.




(parágrafo de FRONTEIRAS QUE SE NARRAM, artigo científico desenvolvido para uma disciplina dos Estudos Culturais.)

a ordem se mantém



continuamos indo do presente para o futuro...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

...noite de chuva

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008


Moralités légendaires






"Método, Método, que queres de mim?
Bem sabes que comi do fruto do inconsciente."





JULES LAFORGUE,
Mercure de France, p.24

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Linguagem e pensamento

A linguagem não é um mero instrumento de trabalho, é uma força que exprime as sutilezas do pensamento. Palavra e pensamento se entrelaçam, são fronteiras que se cruzam, contrários que se unem, sabores que se degustam.



(As palavras bonitas são uma espécie de remédio para a alma. Um pouco de lentidão na pronúncia e é possível saboreá-las em extensão.)

sexo às palavras

"Meu silêncio é feminino", como diria Edmond Gilliard, pois todas as palavras o fecundam, e dentro dele gozam duplamente, como jamais conseguiriam de outra maneira.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

de 'A Excêntrica Família de Antonia'

O provérbio é errado. O tempo não cicatriza feridas. Ele apenas alivia a dor e embaça a memória.

Nada morre para sempre. Alguma coisa sempre fica, de onde outra nasce. Assim a vida começa sem saber de onde veio ou por que existe.

O tempo conquista o tempo. Às vezes o tempo fica lento como uma tartaruga cansada. Às vezes rompe pela vida como um abutre em busca de presa. O tempo não se preocupa com a vida ou a morte, declínio ou ascensão, amor, ódio ou ciúmes. Ignora tudo que nos é importante e faz com que esqueçamos dele.


(A excêntrica família de Antonia - Marleen Gorris)
[com a liberdade de algumas modificações de tempo]

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Dialética

1- Os olhos andam sem música.
2- Erra na matemática de algumas histórias.
3- O pensamento decretou falência múltipla de mais de mil palavras.
4- Já não ouve o que dizem todas as cores.
5- Rasgou suas fábulas.
6- Guarda um coisário repleto de vazios.
7- Graças ao cultivo de esquecimento, nada sabe sobre uma velha mania de devaneios que repousa inconsciente num dentro que não tem fora.
8- Ordena-se na distância metafísica de um nada cheio de águas.

Ouvi dizer que absteve-se dos amigos mais antigos. Acompanha-o agora somente a querida vã Glória, que fez dele, com muito esforço, um fulano sem sujeito.

O meu pensar é como um vinil riscado.
Ando de um lado para o outro e caio sempre no mesmo lugar.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Quando eu estiver sonhando não se aproxime.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

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A vida vai passando pela janela do carro. Tudo tão rápido que não há tempo para mergulhar na profundidade de cada coisa.
E que profundidade, se tudo é tão superficial?

Quero todas as estrelas e só uma constelação

A falta de você é como um Nilo azul, que batendo em rocha dura esmigalha-a de grão em grão até esculpir o seu grande Quenium.





(coisas velhas)

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

No dia em que acordei vegetaL

Meu siso nasceu do riso de uma papoula, despida da sílaba que a vestiu. Insígnias e palavras tem lugar no alto ponto onde fábulas resistem com poder de encantamento.
Tudo era verde.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

kosmos X caos

Eu planto morangos e nascem morangos. Estamos tão acostumados com a ordem que não pensamos nela.


(plantar morangos e nascerem morangos não é nada óbvio, é mágico.)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Exemplos do insondável

Por vezes fecundo tristezas, me engravido de memórias, estouro, transbordo pelos lados, vazo, arrombo palavras, empurro e abandono desejos.
Evanesço.

Estanco debaixo de uma árvore, descanso entre folhas, cavo raízes, me alimento de um abraço.
Medro.

Identidade

Identidade é um processo de reconhecimento gerado na exposição diante do outro.

esforço mínimo



NÃO QUEIMAR
NÃO DESMATAR

domingo, 13 de janeiro de 2008

Da Alma

"A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe."

"Delícia de fechar o olhos, por um instante e assim ficar,
sozinho, fabricando escuro... sabendo que existe a luz!"

(Mário Quintana)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

o Leo tinha razão

"Uma vez que você tenha experimentado voar, você andará pela terra com seus olhos voltados para o céu, pois lá esteve e para lá desejará voltar. " (Leonardo da Vinci)

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

relato de vôo



Dez da manhã e estávamos no pé do morro.Queria um termômetro pra saber a temperatura, nunca senti o sol arder tanto. Uma camada generosa de filtro solar em todo pedaço do corpo exposto, boné na cabeça, camelback nas costas, muito ânimo e hora de encarar a subida.
De todas as vezes que subi o morro essa foi a mais penosa. Subir no fim da tarde pra ver o pôr-do-sol é mais fácil, agora, com sol a pino é mesmo de matar. As pedras parecem maiores e mais altas, cansa em dobro e a subida fica mais ‘ingridi’,como diria nosso amigo Aldemar. O morro tem só 210 metros de altura, debaixo desse sol e com essas pedras parecem 400.
Já estava quase perdendo as pernas quando fizemos nossa parada merecida. Sentamos numa sombra onde a vista já recompensa. Enquanto todas as minhas sensações - cansaço, sede, náusea e fome - me sacudiam de uma só vez, os guris se divertiam observando alguns voadores que dominam o céu por aquelas bandas:
_ Tá vendo aqueles caras ali?
_ Os da esquerda ou da direita?
_ Os que estão na base daquela nuvem ali. Olha só que enroscada!
_ É... tão subindo tudo que dá...


Fiquei procurando 'os caras' até cansar o pescoço, sentindo minha nuca esturricada (putz! esqueci desse pedaço). Bem, olhei, olhei e não achei nada, só uns passarinhos lá em cima.
Ok. Tomo água, fôlego, e o Arthur me puxa:
_ Bora amor, agora tem menos da metade.

Os passos estão lentos e fico pensando: que animação! Como a galera aqui gosta de diversificar, sempre buscando o melhor vento ou um vôo diferente não importando onde. Tudo pelo prazer e pela técnica. Nada de preguiça.
Topo do morro finalmente, tudo parado e - como diria nosso amigo Aldemar - ‘jarrada’ de vento que é bom, nada! Putz de novo! Escalar e morrer no morro?
NÃO! Não para o super-super Fernandes Falcon, o urubu mais cheio de ciência dessas paragens! Tan dannnnnnnn...
Aqui não, hein! Esse tira vento de pedra. E foi o que se deu. Asa aberta, equipamento em ordem, todo mundo conectado e...
_ Agora vai, agora vai... Ai meu Deus! Cadê esse vento? ... agora vai, agora vai... Pô!tá feio hein? ... É agora, é agora! Arthur, gruda aí. Vocês dois, dá pra fazer um varal?
_ Olha aqueles caras ali enroscando numa térmica. Acho que a bufa dela passa aqui.

De novo os tais 'caras'. Olho pra todo lado e nada. Dou três piscadas pra desembaçar e só mesmo passarinho lá em cima.

Tá chegando a hora.
_Seguinte Ângela: quando eu falar ‘vai’, começa a correr e não pára.
_Ok!


Eu estava tranqüila. Não sei por que, não sinto medo nenhum, confio no piloto e ao primeiro comando me atiro montanha abaixo. E foi assim mesmo.
_Corre, corre, corre, corre...
Pernas pra que te quero, saí correndo e fazendo força pra ajudar a arrastar a asa o que dava e inflar. Uhuuuuuuuuuuuuuuuu!!!!!
Quando me dei conta já estávamos voando e eu ainda pedalando no ar. Ops!


Que sensação! Vento na cara, ar de sobra pros pulmões, paisagem até onde os olhos alcançam, o mundo lá embaixo. Já sei como os pássaros se sentem. O vôo livre é mágico. Ficava olhando tudo aquilo, o céu ‘quase’ ao alcance, a paisagem toda cabendo no angulo da minha mão e já pensando na próxima vez que poderia fazer isso de novo. Lugar perfeito pra uma poesia, nem precisa de palavras. Abro a boca o quanto dá e engulo uma porção de vento, quero digeri-lo pro resto da vida. Olhei o pessoal que tinha ficado no morro, vejo o Arthur decolando e... ih! Acho que vai pregar. Pregou! (hehe)
Conseguimos uma térmica. A ordem era jogar todo o peso do corpo pra direita e assim conseguir enroscar, girar e subir. Subimos 1.167 pra cima da rampa, se o vento colaborasse chegaríamos mais alto. Mas chegamos aqui por pura peripécia do piloto mesmo, porque o dia não estava fácil. Fizemos metade do caminho pra cidade de Santo Antonio de Leverger. Lá em baixo muitas chácaras e piscinas. Tchauzinho pra galera do solo. Começamos a perder altura, o Fernandes escolheu um bom lugar pro pouso e pronto. Pé no chão de novo e nem dava pra acreditar que o meu solo, a uns segundos atrás, era feito de brisa. Pousamos no pasto de uma fazenda e o nosso resgate chegou junto. Por último, uma chuva de recompensa. De co-piloto pra piloto: Valeu, hein! Parabéns!

Foram 44 minutos em outra dimensão. Impossível passar por uma experiência como essa e não olhar para a vida de outra maneira. Queria que todos os meus amigos pudessem ter pelo menos um dia de pássaro nessa existência.
Sentir-se livre no céu, de peito aberto pro espaço é uma sensação insubstituível.
Ah! Sobre os tais caras? É que urubu aqui é gente. E se chamar um piloto de ‘urubuzão’... Nossa! mó elogio.



sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

desterritorialização

Fim de ano. Família reunida (a galera do sul veio fazer uma visita). Observação.

Eu nasci lá no pé do mapa, Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Sou filha de um indivíduo meio beat que nunca se deixou sossegar em lugar nenhum. Nem dá pra enumerar os cantos dessa América que lhe serviram de casa. Se a frase do Pumba tivesse sido dita pelo pai, eu não estranharia: "Lar é onde o bumbum descansa." Tinha alma de cigano, e o era, só não de nascença.
Bem, nessas andanças me largou no Mato Grosso, onde de vez enterrou o pé, literalmente. E nesta terra de Rondon me resta o fado de ser "pau-rodado". Todo mundo que nasceu em outras bandas e se aloja por aqui é digno desse título. E sempre que me perguntam de onde sou a resposta vem pronta: “De Porto Alegre!” Doce ilusão que se desfaz a cada contato com a minha terra ou gente de lá.
Se vou pra Poa, logo mandam: "Tu é de onde?" Se cá estou - e estou sempre - num determinado tempo de conversa vem a frase: "Você não é daqui, né?!"
Como assim? A que lugar pertenço, afinal?
Estou me conformando em não ser de lugar nenhum. Não pertenço mais a terra onde nasci nem ao lugar onde escolhi residir. Os de lá e os de cá me tiram isso.
Sou uma desterritorializada.
E essa é a situação de muitos por aí. Como no caso de uma amiga japa, brasileira de nascimento e filha de imigrantes japoneses. Aqui no Brasil ela não é brasileira, é japa, quando esteve no Japão não era japonesa, era brasileira. E ela fica “P” da vida com essa história. Fica toda grilada e me pergunta: “Eu sou de onde então?” Depois explico algumas coisas para a minha amiga japa.

E fica esse vazio de não pertencer a lugar nenhum.

Outro dia ouvi a Sirlei dizer que ela era internacional, ou seja, não defendia essa história de nação, de pátria, que isso tudo era uma grande bobagem, que isso só servia pra incluir o indivíduo em um determinado território e excluí-lo do resto do mundo.
E pensando bem... Olha que isso não é de todo ruim. Resolveria boa parte dos problemas desses povos que vivem em pé de guerra a eras. Ninguém estaria proibido de entrar em território alheio (território de quem?). Nenhum território seria de ninguém (território... o que é território?).
Já começo a compreender a Sirlei. Não pertencer a lugar nenhum é ser de todos os lugares ao mesmo tempo.
Ok! Nós, os desterritorializados, somos cidadãos do mundo.

Assim fica melhor.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

dedicatória

Não são dois caminhos
é uma só alma
que se parte em duas histórias.

(porque a gente viaja.)

Histórias da nossa américa
de invasores e invadidos
desse romance de sermos negros, brancos e
índios, sempre índios.
Te apresento Isabel
e essa Inés que somos dela.

da desmemória que me resta,
poucas palavras.


para a hermana
em Inés da minha alma de Isabel Allende.

crê/lê/vê/descrê/revê


sou meio Clarice
assim, sentidora...


"Eu não sou promíscua. Mas sou caleidoscópica:
fascinam-me as minhas mutações faiscantes
que aqui caleidoscopicamente registro."

(Clarice Lispector)

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

.

RE - COMEÇA-SE

.

domingo, 30 de dezembro de 2007

essas coisas

"... Dos antepassados, cada índio tem que saber pelo menos duas coisas - onde está enterrado o umbigo e onde está enterrado o crânio. Quer dizer, onde o bebezinho nasceu e onde depois a pessoa morreu. Mas isso é coisa de índio. Homem branco hoje em dia não liga mais para essas coisas. Prefere saber escalação do time de futebol, marcas de automóveis e outras sabedorias civilizadas."

(História meio ao contrário - Ana Maria Machado)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

moldura para um dia bom

nenhuma outra voz a teria cantado tão bem.
nenhum outro sorriso poderia atribuir-lhe tanta leveza.

http://www.youtube.com/watch?v=vnRqYMTpXHc&feature=related

Foi gravada pela primeira vez por Armstrong no outono de 1967.
Mais otimista, impossível.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

na deslealdade dos dias

O silêncio frontal impõe-me a tua presença. Ainda na memória busco o rastro aceso dos teus olhos (nunca sei o que realmente olham). À margem de ti, mantive-me navegando em múltiplas ausências.
Rabisco no inverso desse avesso arquipélago, minha história ao contrário. Não sei em que pé minha ilha se apóia. O incerto murmura na paisagem astrolábica dos meus olhos semi-cerrados. Invoco um enigma azul que rompe esse luto adverso.

(mas me quebraram os gestos e fio-me no surdo-mudo das palavras.)

e ecoa ainda na minha memória a pergunta do poeta palestino Mahmoud Darwish à reunião de nuvens:

"Para onde vão os pássaros depois do último céu?"



quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Glaubber - poesia em Cuiabá

Para uma edição de "A Tempestade" de Shakespeare de 1926.

"Amarelecidas
As páginas entregam
Juntamente com o tempo
O sabor dos anos...

A solidão desse silêncio pelo vento marulhado
O céu, que resplandece uma agonia alhures
Rumorejar das copas entediadas e solenes
Ritmo absoluto de como as cousas se movem
com a cor mediúnica da terra
em seu processo de labor e alegria...

e além desse silêncio
o pragmatismo obtuso de construções sem poesia
a caudal de violências em que buzinas e imprecações se agitam
vociferar do vozerio inescrupuloso em sua insolência..."



O Glaubber é poeta grande já, desses que fazem poesia até em papel higiênico.
Quer um papo com o poeta? Sabe a banca de livros do Sodré na rampa do IL, na UFMT? O poeta guarda as horas por lá. Está sempre disposto a conversar e te dar dica de bons livros.

Este e outro poema maravilhoso dele podem ser lidos na revista SINA do mês de novembro de 2007.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007



Satanique, o gato do Du.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

no cinturão de Orion

Orion é minha constelação favorita. Está no des/limite da minha geografia. É sempre a primeira coisa que olho quando estou sob céu aberto.
É minha diurna noite (me noturno com saudades da sua companhia).
Imaginoso.



"Na mitologia grega, Orion era um gigante caçador, por vezes chamado de Orião. De seu mito há várias versões . Segundo a mais comum delas, Orion era filho de Poseidon e de Gaia . Recebeu de seu pai o dom de andar sobre as águas, e de sua mãe o tamanho gigantesco. Dotado de beleza extraordinária ,era cobiçado pelas mulheres e pelas deusas.
Casou-se inicialmente com Side, que se dizia ser a mais bela de todas as jovens da Grécia antiga. Mas Side era orgulhosa e gabava-se de ser mais bela ainda do que as imortais, mais bela do que a própria Hera. Ciumenta, Hera vingou-se e precipitou a jovem do cimo das montanhas do Tártaro, matando-a. Tendo perdido a esposa, Orion perambulou perdido pela Terra.
Certo dia, foi chamado por Enopião, rei de Chios, para acabar com as feras que haviam invadido seu reino. Tendo terminado o serviço, conheceu a jovem Mérope, filha de Enopião. Mal se viram, os jovens apaixonaram-se. Porém o pai de Mérope era contra o casamento, e criou uma armadilha ao gigante. Enopião, que significa "o que bebe vinho", em grego, conseguiu embebedar o jovem. Quando este já estava dormindo, o rei cegou-o e expulsou-o do reino. Foi achado por um garoto, que se sentou em seus ombros e o guiou até o Sol Nascente. Quando Eos, a Aurora, o viu, apaixonou-se por ele e curou-o, dando-lhe novamente a visão. Os dois foram morar na ilha de Delos. Os dois viveram algum tempo juntos, porém o amor deles não durou muito, e Orion partiu para novas conquistas.
Em suas viagens conheceu Artemis, a deusa da caça, com quem criou forte amizade. Logo o caçador se apaixonou pela deusa, e, segundo dizem alguns autores, Artemis também se enamorou dele, apesar disso ser motivo de controvérsia. De qualquer forma a amizade dos dois gerou fortes ciúmes em Apolo , que um dia enviou um enorme Escorpião para matar o gigante. Apesar de o caçador estar habituado a esmagar estas criaturas , este era maior que Orion , além de possuir uma couraça que a espada do gigante não conseguia atravessar. Houve uma feroz batalha, que acabou com a morte de Orion.
Inconformada, Artemis pediu a seu pai, Zeus, que o revivesse. Zeus se recusou, mas acabou por transformar Orion em uma constelação, colocando-o nos céus. Transformou também o Escorpião, mas, temeroso de que os dois lutassem, Zeus colocou-o no canto oposto do céu, de forma que quando um ascendesse , à noite, o outro descendesse, e nunca estivessem juntos no céu.
Orion está no céu sempre a perseguir uma lebre, acompanhado por Sírius, que segundo alguns é seu cão, com uma pele de leão e com uma espada no cinto."





Uma curiosidade:

As estrelas que formam o Cinturão de Orion serviram de inspiração para a construção das pirâmides de Giseh no Egito, que encontram-se alinhadas na mesma disposição das estrelas do cinturão do gigante.

"Na Pirâmide de Quéops, em particular, sabe-se um detalhe no mínimo interessante…Os dutos de ventilação que desembocam na Câmara do Rei permitem que, a partir do sarcófago de granito vazio que existe no interior da Câmara, se visualize numa determinada época do ano o "Cinturão de Órion" por um duto, e a estrela Sírius (a (Alpha) Canis Majoris), pelo outro."


Só pra comparar:




não sei se é tristeza
ou se é dezembro



sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

por hoje

nO Passeio da Boa Vista
em companhia do Russo.


o Renato me consegue sempre

poesia sem palavras

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Sobre EU e VOCÊ

Estamos em constante processo de resignificação por uma questão natural. Somos colocados para refuncionar a partir das exigências da vida. Esse processo de resignificação de nós mesmos reflete uma realidade existencial. Nossos elementos singulares vão adaptando-se aos acontecimentos num movimento de (re)visitação de si mesmos e de conseqüente mutação sem prejuízo de nossa essência, mostrando-nos caminhos desprovidos de finitude e carregados de sentido que a identidade em processo de construção percorre, (re)construindo-se a cada passo num movimento ininterrupto de adaptação e significação valorativa dos símbolos que nos representam e nomeiam.
O movimento do nosso 'eu local' e do 'eu global' ou 'eu interior' e 'eu exterior' ou aquilo que 'realmente sou' e aquilo que 'aparento ser', vai constituindo-se em elemento de edificação identitária em todos os aspectos da nossa existência enquanto ser (lembrando que acredito na existência como infinita, a morte nos tira a vida mas não nos tira a existência).
Os nossos representantes simbólicos através do tempo são, sem dúvida, uma exigência histórica. A maneira como esses símbolos significam valorativamente processa-se nesse movimento de mutação ininterrupto e reticular por força temporal.
A idéia de identidade não está, certamente, cristalizada, não possui conceito definitivo, rígido, de uma realidade já definida. Somos, na verdade, um processo em andamento. Não estamos congelados no tempo, mas em processo contínuo de (re)visitação de nós mesmos e consequentemente em um processo contínuo de mutação, de transformação, que não significa o abandono de uma forma para a aquisição de outra, mas uma variação na forma sem prejuízo da essência, evolução de algo em si mesmo. Modificamo-nos em nós mesmos no movimento de nossos elementos originais e de elementos importados, de invenções próprias e de invenções tomadas de empréstimo, no movimento do 'de fora' e do 'de dentro'.
Somos algo inacabado, em eterna (re)construção. O singular e o plural vão se ajustando, alimentando-se um do outro. Todas as relações, sejam grupais ou interpessoais, estão entrelaçadas.
Parafraseando Thompson (teórico dos Estudos Culturais), a manutenção de nós mesmos no tempo exige uma contínua reconstituição de nossos conteúdos simbólicos no desenrolar da vida.
Eu e você somos uma construção narrativa autônoma. Defendemos nosso território individual e coletivo, estabelecemos nosso ritmo de vida, ordenamos nossos conflitos e nos determinamos legítimos a fim de nos diferenciarmos do Outro sem deixarmos de ser universais. Destacamo-nos não apenas pela diferença, mas pela hibridização. Pertencemos a um cenário multideterminado cujo destaque vai além do multiculturalismo étnico composto pelo nosso ser-índio, ser-africano, ser-europeu de nossa formação. Somos também e principalmente na maneira como (re)visitamos a nós mesmos e nos resignificamos. Reunimos o 'de dentro' e o 'de fora' sem deixarmos de ser singulares, sem deixar-nos perder do que nos significa diante do Outro. Não nos confundimos, nos transformamos sem prejuízo de essência. Reinventamo-nos em nosso cotidiano.
.
.
Relembro Ortega y Gasset naquela frase clássica:
"Eu sou eu e minhas circunstâncias."
('n' leituras para ela)
.
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(pensamento desenvolvido a partir da realização de um trabalho científico sobre a resignificação da tradição na pós-modernidade. Os Estudos Culturais alargam nossa visão sobre conceitos que fazemos daquilo que observamos.)

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

texto em fraturas

não darei teu nome ao que me resta
um fantasma me beija de morte cavada
fere-me de uma impossessão soturna, lenta, pesada.
seguro em concha minha alma alquebrada em dia branco
caminho no horror do vazio preciso
e vou nascer no próximo instante de exata insistência.

o que me devora ainda me faz forte.
memória debruçada sobre uma imagem lisa.
teus cabelos estendidos, longos, longe do meu alcance.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

un ratito que pasa

soy una boluda mismo!
boluda!
mismo!

y con el tiempo me voy perfeccionando.
me di cuenta.

sábado, 24 de novembro de 2007

"adivinha tarde demais que se mumificara"

Essa chuva que não me deixa pensar em nada...
Sem livros de teoria por hoje.
Tudo o que quero é ficar aqui parada.
Pego Os Subterrâneos do Jack e ...que inveja sinto dessa liberdade de poder falar, vomitar tudo numa prosa espontânea _ como ele mesmo chamava. Por hora me sinto exatamente assim, subterrânea. Ninguém pode me ver, nem me ouvir, nem me ler. Nada falo, nada escrevo, me escondo. Preciso tentar um mergulho mais raso, ainda estou em labirinto fundo e perdida. De tanto tentar brotar esquecimento, não sei por onde me deixei.
A merda dos dias é quando você pára pra pensar em nada e não consegue pensar o nada que queria, pensa um outro nada que é o nada de sempre, que incomoda. E mesmo quando você pensa não pensar, esse pensamento está lá, camuflado no que você pensa pensando não pensar.
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No que tô pensando? Em nada.
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Tá vendo aquelas letras ali? Nunca leia! São pássaros em vôo, dizem nada.
Estou encapsulada no meu vagomundo e por estes tempos tudo o que tenho é meu computadoramigo sobre a minha escrivaninhacasa. Meleio em algumas canções por aí e em dias dechuva que, não sei porque, insiste em só cair, tombo com ela.
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não consigo parar de ouvir a case of you.
a Joni é sempre boa companhia.

dia desses...

_ Apaixonei-me por Joni Mitchell, tô vendo se ela tem outras letras tão maravilhosas. Acabei de ler A case of you, e tem uma frase...

I remember that time you told me, you said,

\"Love is touching souls\"

Well surely you touched mine

Cause part of you pours out of me

In these lines from time to time.

(Eu lembro da época que você me dizia

'Amor é tocar almas'

Seguramente você tocou a minha

Pois parte de você flui de mim

De vez em quando, nestas linhas.)

Tocar almas...

_A Joni é poeta. Todas as letras que olhar serão assim, profundas. Estava desde ontem pensando em dedicar um post a ela. Engraçado te mandar essa música...

...alma, sempre ela.

Diálogo de andanças - sobre essa coisa que chamamos de alma. Papo com o cara mais beat que conheço.

http://www.youtube.com/watch?v=6voJjexENok

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

de 'O céu que nos protege'

_Are you lost?

_Yes.

_Because we don't know when we will die... we get to think of life as an inexhaustible well. Things happen only a certain numbers of times. And a small number, really.
How many times will you remember an afternoon of your childhood... an afternoon so deeply a part of you that you can't be without it? Perhaps four or five times more. Perhaps not even that. How many times will you watch the moon rise? Perhaps twenty. And yet it all seems limitless.

(The Shelterning Sky)

domingo, 18 de novembro de 2007

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não sei por onde anda minha vastidão...




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sexta-feira, 16 de novembro de 2007

EM TEMPO



Depois de quatro anos à míngua, ganhamos de presente _literalmente_ o In Rainbows.
No dia 10 de outubro o Radiohead tornou-se responsável por aquilo que no dia anterior o “Times” havia chamado de “The day the music industry died”. Publicaram o novo álbum na sua página na internet e o colocaram disponível para download pelo preço de... _ bem, essa é a revolução _ pelo preço que cada um quiser pagar. O CD torna-se material irrisório, o que contam a partir de agora são os “concertos”. Tem-se notícia de que até o segundo dia já haviam sido descarregados 1.2 milhões de cópias digitais numa média de 8 dólares. E para os que fazem questão do objeto físico, o CD sai a partir de 03 de dezembro.
Não é nenhuma banda anônima de garagem tentando chamar a atenção do mundo. São os autores de PABLO HONEY(1993), álbum referência ao rock alternativo norte-americano sendo 'Creep' a música de maior sucesso do álbum, tocada e tocada durante bom tempo nos programas da MTV ; THE BENDS(1995) foi o álbum que despertou a atenção do mundo para a banda definitivamente, levando 'Street Spirit' ao quinto lugar nas paradas do Reino Unido, e que trás a lindíssima ‘Fake Plastic Trees’ que é tudo o que eu queria ter cantado _ deles até hoje; OK COMPUTER(1997) álbum impactante; KID A(2000) experimentos com música eletrônica; AMNESIAC(2003) seguindo a mesma linha de Kid A; HAIL TO THE THIEF(2003) que é uma releitura da sonoridade dos trabalhos anteriores, e finalmente IN RAINBOWS(2007), um regresso às origens, instrumental perfeito.
Os arranjos bem elaborados, ousados, complexos e melodias tristes colocaram a banda ao lado do Pink Floyd e até, olha só, dos The Beatles.
São influências do Radiohead:
Talking Heads,
de influência marcante para a banda, dona de uma música chamada "Radio Head" onde os meninos se inspiraram para dar nome ao grupo.

Jeff Buckley,

compositor, cantor e guitarrista norte-americano, dono de uma voz singular e timbres insuperáveis;

Can,

banda de rock experimental alemã, de estilo musical baseado em bandas de rock de garagem como The Velvet Underground;

Joy Division,

pós-punk;

Aphex Twin,

DJ e produtor de música eletrônica, considerado figura influente da música eletrônica contemporâea;

Elvis Costello,

cantor compositor e músico britânico, parte do cenário pub rock britânico, mais tarde associado ao punk rock e new wave pra depois ser considerado voz única e original dos anos 80.

O delicioso estágio de sono REM.


E como não poderia deixar de ser... tan daaaannn... o rock progressivo do Pink Floyd.



O Radiohead tem a ver comigo. Adoro as músicas e o timbre vocal puro e anêmico do Thom Yorke.


...pra degustar, do novíssimo In Rainbows.

http://www.youtube.com/watch?v=-kCKob1YKOU&eurl=http://lishbuna.blogspot.com/2007_10_01_archive.html

site oficial da banda: http://www.radiohead.com/

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

um nome relâmpaga-me a memória
e tudo termina no meio de um gesto que não se completa.
tento fugir de dentro de mim mesma
sob um olhar de censura magoada

resta-me a gratuidade do em vão.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

apegar-se ao tolo é imperdoável tolice

Quando as pessoas encontram a hora de ir
e num gesto de carinho e respeito dizem adeus,
ficam para sempre guardadas na lembrança de dias bons.
São passado em ritual de revivescência.

Quando as pessoas encontram sua hora de ir
e num gesto imaturo que descoberta sua ausência de essência
partem num 'dar-de-ombros',
delas ficam pedras pontiagudas na memória,
um ar opaco,
uma sensação de tolice,
um verbo rasgado,
um substantivo imbecil.

Toda a minha mágoa é não ter motivo pra amar uma lembrança.
Esquecimento é desmemória e despalavra. É destoante, desistência, desazo, destroço, desusado, desbotado, desvalido, desvantajoso, desditoso, desenredado, destituído e destinatário.
Desvão.



por que não podia ficar o belo?
a tua alma é tão triste...
e me vejo em ti

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

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eu me demoro em Goya.

sábado, 10 de novembro de 2007

sobre o silêncio

Silêncio é o que me há de concreto
É nele que esquecimentos me pertencem,
Me encontro em tudo que me falta

Fantasma memória de plácidas janelas

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Relembranças vigiam em dia raso
enquanto teus olhos me incandescem de dentro


escrito originalmente para a 'Luneta Mágica'
lances de alma

do Rosa




"O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem."

João Guimarães Rosa

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

PORCAS BORBOLETAS

"ao acaso, a gente se encontra pela rua.
você me oferece um dos biscoitos que comia.
aceito.
curiosidade em sentir o sabor de sua boca.

trazia também junto ao corpo
um presentinho de seus alunos,
uma rosa.
o dia, atrás de nós, muito branco.
penso então no argumento do poema japônes:

"para você
sem colhê-las
todas as flores do mundo"

insight tardio.
a tarde urgente já havia te levado.
(só sobrou o biscoitinho).

olho para trás, o dia muito branco.
para você, silenciosos, todos os poemas do mundo."

(Danislau Também)


circulação alternativa
coisas interessantíssimas rolando por aí
'léguas - superiores' às porcarias que nos querem obrigar a consumir.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

tudo é uma questão de perspectiva


“Enfie no teu-e-
* ria essa bosta
de teoria!
Na prática...
A merda é sempre outra.”

(Vitória Basaia - artista plástica)

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Cada vez mais

GLOBALIZAÇÃO
As fronteiras diminuiram... ou aumentaram?
Vamos até o Japão sem sair do quarto e vivemos cada vez mais entre grades.


PÓS-MODERNIDADE
Somos sujeitos fragmentados, pós-modernos. A pós-modernidade é linda?
Somos cada vez mais especialistas e sabemos cada vez menos coisas. Nos aprofundamos numa particularidade e perdemos habilidade para as outras.
Quanto mais especialistas nos tornamos, mais recortamos a nossa vida e acabamos mais dependentes uns dos outros, e ainda assim o diálogo não é estabelecido.
Estamos aprendendo a ser cada dia mais individualistas. Estamos mais sós.

somos pajaros incansábles

Necesitamos encuentrar el camino del alma plena. Seguimos por aqui.
El alma está llena. Aquí están las palabras solas que a veces se quedan por el camino, pero 'todo' que hay en ella no puedo aún _ ni yo, ni usted _ sujetar. Entonces me quedo en la contemplación cuando em mi espacio, de sus palabras caen ratos de tu alma que despiertan ratos de la mía.
Comprendo la búsqueda. Comprendo como es morir y nadie mirar. Comprendo como es sentirse sola y procurar no sé que, sin encuentrar.



Nosotros por la calle, aunque por medio vaso de cerveza. Las palabras de la desesperación, el tiempo que urge en defensa propia, el deseo de agarrar el ratito que mira con exquisita precisión la profundidad del alma de nosotros sin determinar el destino de la noche. Y el coraje... mira! El coraje se queda en el fondo del vaso, y a la menuda observación es como un rayo que nos atraviesa lleno de memoria en el ineludible paso del tiempo. Además, somos pajaros incansables. Hay gestos para la emoción y la furia, para el cielo y el asombro.


escrito originalmente para a 'Luneta Mágica'
lances de alma

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Clarice Lispector






"E ninguém é eu, e ninguém é você. Esta é a solidão."
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"Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros."
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"Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso."
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"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."
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"Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo."
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"Eu sou uma pergunta."
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"Se eu fosse eu talvez eu não me conheceria."
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segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Amanara

Fim das horas de sono estéril.
Quem vem até a janela pra me acordar numa manhã de indesejada segunda-feira? Amana.
O juízo, com as suas inconveniências me irritando: _Dia de sabatina no mestrado, precisa estudar!
Foi então que veio um “dane-se! mereço essa chuva”. Fiquei com ela. Temos uma história. Aproveitei pra pôr o pensamento em dia.
Basta! Chega de correria. O sangue pulsa, os dias não só passam pela vida.
O meu encontro comigo se dá em horinhas assim.
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Felicidade é/não é uma coisa estabelecida.

sábado, 3 de novembro de 2007

A NATUREZA JÁ ESTÁ MUITO CANSADA


Imagem divulgada pela Nasa mostra que o degelo do oceano Ártico quebrou todos os recordes e encolheu neste ano mais de 1 milhão de quilômetros quadrados (fonte: UOL - 22 de setembro de 2007).
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"A natureza já está muito cansada", escreveu o frade espanhol Luis Alfonso de Carvalho. Foi em 1695. Se nos visse agora... (E. Galeano)
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"Das matas mediterrâneas, permanece em pé uns quinze por cento. Há um século, o arvoredo cobria metade da Etiópia, que hoje é um vasto deserto. A Amazônia brasileira perdeu florestas do tamanho do mapa da França. Pelam-se as matas, desertifica-se a terra, envenenam-se os rios, derretem-se os gelos dos pólos e as neves dos altos cumes. Em muitos lugares a chuva deixou de chover e em muitos outros chove como se o céu se abrisse. O clima do mundo está mais para hospício. As inundações e as secas, os ciclones e os incêndios incontroláveis são cada vez menos 'naturais', embora os meios de comunicação, contra toda evidência, insistam em chamá-los assim. O poder encolhe os ombros: quando este planeta deixar de ser rentável, mudo-me para outro.
As palavras perdem sentido, enquanto perdem sua cor o mar verde e o céu azul, que tinham sido pintados por gentileza das algas que lançaram oxigênio durante três bilhões de anos.
Essas luzinhas da noite estão nos espiando? As estrelas tremem de esturpor e medo. Elas não conseguem entender como continua dando voltas, vivo ainda, este nosso mundo, tão fervorosamente dedicado à sua própria aniquilação. E estremecem de susto, porque já viram que este mundo começa a invadir outros astros do céu."
( EDUARDO GALEANO - 2002 )
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Essas questões me preocupam sinceramente, mais ainda num momento em que a voz dos céticos parece ganhar cada vez mais projeção. Tenho feito a minha parte, mas está longe de ser suficiente.
Que sensação de impotência e indignação! Mas não desisto.

...e meu corpo anda mesmo pedindo um pouco mais de alma. *

“Fala! Teu falar é grato
Como o vinho que embriaga,
Se n’alma tristeza apaga,
Traz sonhos que não tem fim!...”
(Fagundes Varela)



Agora olhando mais de longe, começo a perceber que mandei minha alma pra casa errada.
Compreendo que esquecimento é mesmo coisa de se esquecer.



*parafraseando Lenine - Paciência

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

(coisas velhas)

Meu fado anoitece em esquecimento
me silencio de estrelas quando horizonto os olhos
tudo cala no verde do momento.

Meus inteiros me decompõem para resto
árvores e libélulas me significam
hoje, estou coisa para vazios.

colhido por aí

Tristão e Isolda
Romeu e Julieta
O Amor nos Tempos do Colera
As Pontes de Madison
O Paciente Inglês
...
Não importa a história, cada um tem a sua.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

ESTAdo

Não sei se a memória disso que vejo é passado ou futuro.
Preservo da minha inércia a ruína do não desejo.
Tudo leva o tempo.
O presente é a minha falta.
Mas se ouvem o grito de quem transita entre rostos conhecidos,
hei de sacudir e arrancar um gemido
da rua que me segue calada.

monólogo de janela

a imagem dela, único bem que me restou
IMPRESSÃO
Sempre senti nojo de barata e medo de lagartixa. De barata por andar em lugares sujos, cheirar mal e ter aspecto asqueroso, sem falar no insuportável plec! de quando morre e da gosma nojenta que fica no chão e no chinelo. Arrepio.
De lagartixa por ser tão pálida e andar de forma ameaçadora com aqueles olhos arregalados que parecem sempre estar olhando para mim, mesmo quando à espreita de um inseto. Mas descobri que eu e lagartixa somos muito parecidas. Lentas, observadoras, tranqüilas e calmas quando longe de uma ameaça, sem falar na palidez. Andamos em planos diferentes, mas às vezes penso se não seria verdadeiro o plano dela e não o meu.
Só me sinto meio barata quando estou com pressa. Não preciso dizer mais nada.
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EUlália
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(não pude trazer a janela.
fiquei sem horizonte.)


segunda-feira, 22 de outubro de 2007

SOBRE O REI

· Ah! o rei? De vez em quando me convida pra um chá, incensos e livros. É inteligente sem ser esnobe. Sedutor... medieval... Está sempre de barba mal feita e cabelos ao vento, gosta de poesia, toca bandolin, observa as estrelas e entende de constelações.

sábado, 20 de outubro de 2007

QUEM SOU EU?

Moro num quadro de naïf, sou uma cor em Frida kahlo, andei fumando charutos com o Jack*, leio poesias com o Pessoa(s), erro a língua com o Manoel e o Rosa, sonho sempre com um Quintana, durmo com o rei, vou às vezes para Passárgada, planejo Galápagos em algum novembro, levo comigo o Elefante do Drummond, namoro Órion e abraço árvores por aí.
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*Kerouac

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

“Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo; se um seixo for levado pelo mar, a Europa fica menor, como se fosse um promontório, assim como se fosse uma parte de seus amigos ou mesmo sua; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.”
John Donne